sábado, 22 de maio de 2021

SOBRE O FOTOGRAFO FIDANZA

 

1902, Doca do Ver o Peso do Fidanza

Claudelice Macêdo  - 21 de dezembro de 2016 em 04:49 - Permalink

"Amei tudo, se quiser acrescentar algo, ele deixou um neto, que era o meu avô, fico feliz em ler um pouco mais sobre ele.
Obrigada! Parabéns pela pesquisa, lindo demais ler tudo isso.
Ass: tataraneta rssrssrrs"

http://brasilianafotografica.bn.br/?p=4274

Este artigo, ao qual ela se refere, não encontrei mais, porém,  como o tinha salvado, reproduzo porque é muito intressante.

"O Jornal do Brasil de 31 de janeiro de 1903 noticiou o suicídio do português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903), um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no norte do Brasil no século XIX e no início do século XX: “Atirou-se ao mar, de bordo do vapor Christiannia, em viagem de Lisboa para esta capital (Belém), o conhecido photographo Felippe Fidanza” ( Jornal do Brasil, 31 de janeiro de 1903, na primeira coluna ). Ele havia se jogado ao mar na altura da ilha da Madeira quando retornava de Portugal com a mulher e os filhos. Havia viajado para cuidar de uma encomenda dos governos do Pará e do Amazonas de 10 mil álbuns de vistas destes estados. Parece que foi mal sucedido e já havia, inclusive, tentado se matar em Lisboa ( O Pharol, 6 de março de 1903, na quinta coluna).

Filho de Fernando Gabriel Fidanza e Maria de Jesus Fidanza, nasceu por volta de 1847, em Lisboa. Até hoje pouco se sabe de sua vida antes de sua chegada ao Brasil, em fins da década de 1860. Em 1º de janeiro de 1867, o Diario do Gram-Pará publicou o anúncio : “PHOTOGRAPHIA, ao largo das Mercez , nº. 5, Fidanza & Com”, o que prova que nessa época ele já estava estabelecido no Pará. Ainda em 1867, Fidanza realizou seu primeiro trabalho de importância nacional: o registro dos preparativos para a recepção da comitiva de dom Pedro II. O imperador foi ao Pará para participar das solenidades da abertura dos portos da Amazônia ao comércio exterior. Segundo Pedro Vasquez,  com esse trabalho, Fidanza “documentou de forma inovadora e antecipatória o espírito jornalístico”. No Diário de Belém, de 29 de agosto de 1868, há uma propaganda do ateliê Photographia Fidanza.

Destacou-se por sua produção de retratos e também pelo registro das paisagens e documentações do início do desenvolvimento urbano de Belém e de Manaus, ocasionado pela riqueza do ciclo da borracha.  Essas imagens de paisagens urbanas foram divulgadas por álbuns fotográficos encomendados pelos governos do Pará e do Amazonas. A modernização de Belém e do Pará foram registradas nas coleções Álbum do Pará (1899) e Álbum de Belém (Correio da Manhã, de 22 de outubro de 1903, na quarta coluna sob o título “Intendência Municipal de Belém). O Álbum do Amazonas (1902), cujo contrato havia sido assinado por Fidanza para o fornecimento de 6 mil álbuns ilustrados destinados à propaganda para o desenvolvimento daquele estado (Diário Oficial, de 16 de março de 1900, na segunda coluna sob o título “Indústria”), foi impresso em Paris sem a supervisão do fotógrafo e continha várias imperfeições, o que gerou uma série de comentários negativos sobre seu caráter. Aparentemente este fato pode ter sido uma das causas de seu suicídio, em janeiro de 1903.

Em seu estúdio, Fidanza fotografou tipos sociais diversos. Retratou no formato carte de visitenegros, mulatos e índios. Para tornar essas fotografias, que vendia, exóticas, utilizava adereços e construía cenários. Representou na capital paraense a firma Huebner & Amaral, sediada em Manaus, e foi um dos pioneiros do cartão-postal fotográfico no Brasil.  Seu estúdio era também palco de exposições de pintores que passavam por Belém para mostrar seus trabalhos.

Enquanto morou no Brasil, viajou várias vezes para a Europa, tendo sempre se mantido ligado às tendências internacionais da fotografia. Viveu a febre dos cartes de visite e dos cartescabinet. Participou da IV Exposição Nacional de 1875, com fotografias de orquídeas da região amazônica, e das Exposições Universais de Paris, em 1889, quando foi premiado com uma medalha de bronze, e de Chicago, em 1893.

Em sua produção fotográfica, Fidanza usou vários processos e sistemas de apresentação disponíveis em sua época, demonstrando conhecimento técnico e estético na escolha dos temas e dos enquadramentos, ângulos e composição do cenário, segundo as historiadoras Rosa Pereira e Maria de Nazaré Sarges. O trabalho de Fidanza reúne um acervo documental significativo para a história de Belém e de seus tipos sociais na segunda metade do século XIX e início do XX.

Cinco meses após sua morte, seu estúdio foi leiloado por sua viúva. Teve diversos proprietários, dentre eles os sócios Georges Huebner (1862 – 1935) e Libânio do Amaral (?-1920).  Segundo o jornalista Cláudio de La Rocque Leal, o estabelecimento fotográfico sob o nome “Fidanza” fez parte da história até 1969. Fidanza tornou-se uma marca da fotografia visto que, mesmo após a morte, seu nome permaneceu no cenário da produção fotográfica e na memória paraense, tanto que outros profissionais, ao adquirirem o seu ateliê, mantiveram o mesmo nome."

                       Perto do seu atelier... a direita onde foi a sapataria Carrapatoso.

Em 2018 tinhamos escrito a respeito, ACONSELHANDO A LEITURA DO ARTIGO QUE HOJE NAO SE ENCONTRA MAIS.

https://civviva-cidadevelha-cidadeviva.blogspot.com/2018/10/o-suicidio-do-fotografo-felipe-augusto.html

Nesse tem algumas de suas fotos, também.

 


terça-feira, 11 de maio de 2021

GOVERNO DA CIDADE...

 

... e da Área tombada.


Entramos no quinto mês do novo governo da cidade e notamos com prazer que, o art. 216.V.1 da Constituição foi lembrado com a criação do Conselho da Cidadania e do Tá Selado. De fato, ali é previsto que: “o Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro...”

O Estatuto da Cidade, ou seja, a Lei Federal nº 10.257, é outra norma que dispõe sobre a gestão democrática da cidade.  De fato, confirma que a política urbana deva ter por objetivo ordenar democraticamente o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana. Se nota isso, claramente, no seu art. 2º II quando prevê a: “gestão democrática por meio da participação da população e de associações representatividade dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano...”

Partindo desses princípios, consideramos justíssimo e respeitoso sermos chamados, como Associação de Moradores, para discutir desde modificações de leis que tenham a ver com o nosso dia-a-dia: arborização; calçadas; poluição sonora; orla; etc. etc. etc.

SERIA O CASO DE CRIAR UM PORTAL DA TRANSPARÊNCIA PARA ESSES DOIS NOVOS AGLUTINADORES DE CIDADANIA.

Há anos esta Associação chama atenção sobre dois problemas muito presentes na área tombada da Cidade Velha: uso irregular das calçadas e a poluição sonora, sem qualquer resultado. Durante a campanha eleitoral, fizemos uma relação dos problemas principais da Cidade Velha, entre os quais estavam os dois acima citados. Reiteramos essa realidade.

CALÇADAS: com tantos órgãos públicos na entrada do bairro da Cidade Velha, o problema do estacionamento é enorme.  Não somente funcionários públicos estacionam nas calçadas, dando maus exemplos a outros incivis,  mas também o uso delas para exposição de mercadorias ou colocação de mesas e cadeiras de bares/restaurantes.



Será que ninguém reparou a largura das calçadas na área tombada, principalmente da Cidade Velha? Somente temos uma calçada que supera um metro de largura. Mesmo assim, vemos abusados usando mesas e cadeiras, tirando direitos dos pedestres, até atrapalhando o transito. Será que so os ribeirinhos, frequentadores da Siqueira Mendes e Dr. Assis notam isso?

Mas, outros comerciantes também abusam desse comportamento ocupando a calçada com produtos que vendem, e mais uma vez, aos pedestres é tolhido um direito que as leis estabelecem que é deles... Esse problema  porém aumentou depois que modificaram o Código de Posturas, que é uma lei, através de um decreto, que normatizava os ambulantes... e ninguém notou que tal decisão era juridicamente nula. 

Será possivel que so comerciante tem direitos? E o cidadão que reclama ha anos disso o que vê? Dai para outros abusos foi um passo...A norma urbanistica que falava de 1,20m não existe mais? Para fazer garagens, aproveitaram para dispor o acesso ou a entrada a elas, através de superfícies inclinadas, destruindo as calçadas e, mais uma vez tolhendo direitos dos pedestres.





















 
E os degraus que apareceram depois do aumento do asfalto no meio da rua que levava a agua da chuva a entrar nas lojas? Cada comerciante levantou a sua calçada, cobrindo as pedras de liós impedindo assim quem usa carrocinha a usa-las... e  ninguem fez nada. 




















Hoje, modificar o Código de Postura mencionando somente bares e similares,  enfim, interesses de alguns  comerciantes, deixa em aberto, e sem solução, os outros problemas que criaram aos pedestres, ou seja, a tantissimos outros cidadãos. 

É esse o incentivo do poder público à reconstrução das calçadas por parte dos cidadãos? Por que não é a Prefeitura a cuidar disso, em vez do proprietario da casa em frente a elas? E pior: porque a cidadania não é  ouvida quando se fala de algi que tira direitos aos cidadãos?

POLUIÇÃO SONORA: é de 1990 a primeira resolução do CONAMA que dispõe sobre critérios de padrões de emissão de ruídos de todos os gêneros. Foram considerados prejudiciais à saúde e ao sossego público, os ruídos com níveis superiores aos considerados aceitáveis pela Norma NBR-10.151 - Avaliação do Ruído em Áreas Habitadas visando o conforto da comunidade, da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT.

“A legislação básica aplicável referente à poluição sonora é a seguinte: artigo 225 da Constituição Federal; Lei n.º 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente; Decreto nº 99.274/90 que regulamenta a Lei nº 6.938/81; Resolução CONAMA nº 001, de 08.03.1990, que estabelece critérios e padrões para a emissão de ruídos, em decorrência de quaisquer atividades industriais; a Resolução CONAMA nº 002, de 08.03.1990, que institui o Programa Nacional de Educação e Controle de Poluição Sonora - Silêncio, e as Normas de nºs 10.151 e 10.152 da Associação Brasileira de Normas Técnicas - ABNT.”

Considerando que a deterioração da qualidade de vida, causada pela poluição, está sendo continuamente agravada nos grandes centros urbanos; no ano 2000 foi feita uma tabela com o nível de critério de avaliação NCA para ambientes externos em DB, dividindo o território em  seis áreas diferentes, variando de 35 a 70 decibéis.

Para a área mista, predominantemente residencial, era previsto 55 decibéis durante o período diurno, e 50 naquele noturno... e aqui situamos o bairro da Cidade Velha e a Campina. Esta norma vale até hoje, mas não em Belém... Por que? Por acaso é uma opção para  a administração local adota-la, ou é uma obrigação? 

O nosso patrimônio continua sendo prejudicado com eventos, inclusive promovidos por órgãos públicos, que superam os 120 decibéis. Em frente às portas de igrejas tombadas continuam festejando santos e noivas com saraivadas de fogos de artifício, ruidosos. Os trios elétricos em frente a ALEPA. MEP  e  IHGPA, com as reivndicções economico-salariais, superando os cem decibeis, também fazem sua parte.  Todos exemplos que prejudicam, além dos anciães, cães e outros seres vivos, e agridem muito pessoas com espectro autista.

Já faz parte de nossa experiência ver modificações de leis que não abrangem o problema inteiro... Por esse motivo, solicitamos que a Constituição e o Estatuto da Cidade sejam respeitados: a cidadania deve  ser chamada para opinar a respeito  de problemas da cidade,  antes de mandarem para a Câmara de Vereadores os projetos de lei. 


Talvez fosse até oportuno acionar os dois Conselhos acima citados, para esses casos, também.


sexta-feira, 7 de maio de 2021

SAUDADE DAS VIGILENGAS...

 ESTÁ NASCENDO, SEM QUERER UMA HOMENAGEM  A NOSSA HISTORIA.

1- VER-O-PESO 

2- VIGILENGAS


...O MERITO É DO "NOSSO BOTO"  COM SUAS IDEIAS E AS TROVAS ... DOS OUTROS.

Ao longo da costa brasileira, vários tipos de embarcação foram surgindo. Além das  nossas vigilengas, temos “ jangadas a remo, até as que usam duas velas, passando pelos cúteres do Maranhão, os saveiros da Bahia, as canoas de tolda do São Francisco, as canoas de convés de Laguna”.


Elas, as Vigilengas, as barcas a vela, fazem parte da lembrança de quem superou o meio século de idade. Numerosas eram as embarcações providas de velas que coloriam a doca do Veropeso. Cada região ostentava nas suas canoas, pinturas diferenciadas, como um tipo de identidade local.

Com o desenvolvimento de Belém, pouco a pouco vimos  as velas desaparecerem das barcas e...do Veropeso. A chegada dos motores de popa possibilitou que, até o possuidor de um barquinho pudesse atravessar rapidamente o rio e trazer seus produto para o mercado.

Os po-po-pós aumentaram e as velas colorids atravessando o rio, desapareceram.

VIGILENGAS: QUEM LEMBRA?

de Antonio Juraci Siqueira a quem agradecemos por nos ajudar a relembrar.

Manuel Bandeira escreveu: Nunca mais me esquecerei/ Das velas encarnadas /Verdes /Azuis/ Da doca de Ver-o-Peso/ Nunca mais.

Quando menino fiz algumas viagens do Cajari pra Belém a bordo da canoa freteira Flor do Cajari. Nesse tempo, há mais de 60 anos, era raro ver embarcação motorizada.Tanto as freteiras quanto as vigilengas, canoas pesqueiras típicas do município de Vigia, eram movidas à vela. Lembro do espetáculo que era ver, pela manhã, quando as canoas içavam âncoras para o reinício da viagem, velas de todas as cores e formatos, veria poemas concretos, borboletas coloridas voando sobre as águas do Marajó...
Hoje, essa visão faz parte do passado e as veleiras só vogan na lembrança deste velho caboclo que, em menino, sonhara ser canoeiro. Agora, essas canoas, com raras exceções, são motorizadas, desde as usadas para transporte de cargas e passageiros às de pesca, incluindo cascos, batelões e montarias.
Ontem postei aqui as trovas premiadas no II Concurso Paraense de Trovas sob o tema Ver-o-peso e hoje, em atenção ao pedido da amiga Dulce Rosa Rocque , postarei as trovas sob o tema Vigilenga, do mesmo concurso, ocorrido em 1986 quando eu era presidente da União Brasileira de Trovadores seção de Belém. As trovas foram publicadas nos Cadernos de Cultura da Semec, que patrocinava os concursos. Dos 16 trovadores premiados, 4 permanecem entre nós e 12 já habitam a outra dimensão.
TROVAS SOBRE VIGILENGAS
Sozinho no baluarte
do cais me ponho a cismar:
- a vigilenga que parte,
faz a saudade aportar!...
( Alfredo Garcia)
Sou vigilenga perdida,
fustigada pelo vento,
vivo vagando na vida
num vendaval de tormento.
(Ana Maria Freire)
Mil pétalas coloridas
que o vento vai carregando,
são vigilengas floridas
pelos rios navegando.
(Benjamin Camarão)
Esbarrei na tua ausência
vigilenga abandonada.
Teu nome, agora, é carência,
saudade desesperada.
( Celeste Proença)
Vigilengas vêm das ilhas
carregando produção,
trazendo, de muitas milhas,
saudades no coração.
(Helder Moreira)
As vibrações do universo
fez de meu mundo um altar:
das vigilengas meu verso;
das santas águas, meu mar.
( José Eimar Monteiro)
Tudo que a vida me nega,
nas páginas recomponho,
vogando com minha lira
na vigilenga do sonho.
(José Ildone)
Vigilenga... És fantasia
e no mar és flor em aste...
Quando levaste a Maria,
o coração me levaste.
(Leonan Cruz)
Inspiração colorida,
vigilengas a bailar...
Na chegada ou na partida,
poemas à beira-mar.
(Maria de Lourdes Cardoso)
Com lindas velas infladas,
vigilengas cruzam mar.
Veleiras das madrugadas,
companheiras do luar
(Osmar Arouck Ferreira)
Vigilenga, as tuas velas,
desfraldas nas baías,
estão cheias, quantas delas,
de saudade das Marias!
(Roberto Rodrigues)
Outrora, meio capenga,
andei só, em desatino,
tal qual uma vigilenga
pelos mares sem destino.
(Roseli Sousa)
Vigilenga, a tua sina,
pelos portos das cidades,
é ir e vir na surdina,
levar e trazer saudades.
(Sebastião Godinho)
Vigilenga, és canoinha
pescando sonho, ilusão,
no Ver-o-peso, à tardinha,
na maré do coração.
( Sylvia Helena Tocantins)
Vigilenga se afastando,
na madrugada sombria,
busca o sol que vem raiando
só pra dizer-lhe: - Bom dia!
(Thereza Nunes Bibas)
Vão no vento navegando
as vigilengas singelas...
Lenços brancos acenando
com o adeus de suas velas!.
(Zinalda Castelo Branco)
***
Bom dia, meu povo!
Faz que nem as vigilengas durante os temporais: te aquieta!

Obrigada por me ajuda a salvar  essa memória.              













    Fotos de amigos e da internet.

            


quinta-feira, 6 de maio de 2021

VER O PESO DE TANTO AMOR!

 Estes dias começaram uma limpesa profunda na doca do Ver o Peso. Todos aqueles que gostam de Belém so podem ficar satisfeitos com isso. Um motivo a mais para nossos poetas aproveitarem...mais uma vez.

Somos da opinião que, mais passam os anos, mais experiencias e lembranças acumulamos e isso, se registrado, serve para salvar nossa memória histórica.

Também somos da opinião que  os nossos "mais velhos" deveriam ser melhor utilizados. Suas recordações deveriam ser salvaguardadas, para ajudar a...não esquecer  nosso passado, nem deixar piorar mais ainda.

O nosso "boto", nos deu essa oportunidade hoje, lembrando sua primeira viagem para Belém, num barquinho. Recorda, desse modo, o tempo em que as barcas tinham velas que enfeitavam a doca do Ver o peso...

Mario de Andrade gostou do que viu tanto que escreveu: Que alegre porto, Belém do Pará! Que porto alegre, Belém do Pará! Vamos ao mercado, tem mungunzá! Vamos à baía, tem barco veleiro! Vamos às estradas que têm mangueiras! Vamos ao terraço beber guaraná!

A visão que teve do Veropa, levou em vez Antonio Juraci Siqueira, anos depois, a fazer uma homenagem a Belém, através de outros tantos admiradores desse nosso recanto... Leiam aqui.

VEM VER O PESO DO MEU AMOR!
Se alguém quiser ver o peso
do amor que sinto por ti,
basta falar com desprezo
do encanto que existe aqui!
De todos os recantos de Belém, o Ver-o-peso, sem dúvida alguma, é o de minha predileção. Menino do interior, vim a Belém pela primeira vez aos dez anos de idade em companhia de meu padrinho José Siqueira e do meu padrasto José Oliveira, a bordo da canoa freteira Flor do Cajari. Impossível descrever com palavras o que senti ao avistar, da canoa, as luzes da cidade refletidas na baía do Guajará...

Belém dançava sob as águas e ganhava vida ao passo que a canoa se aproximava do cais: ruídos de motores, buzinas de carros, música e propagandas comerciais nos alto-falantes e, finalmente, o burburinho humano da doca do Ver-o-peso. Belém, enfim, ali diante dos meus olhos!

Foi amor à primeira vista! Fiquei um tempão no convés bebendo tudo com os olhos e ouvidos. Tudo era mágico e maravilhoso diante do caboclinho tuíra de sol. Dos letreiros coloridos de neon à multidão de canoas de todos os tamanhos e formas que disputavam lugar na doca. Fui dormir embalado por essa magia e acordei com o vozerio vindo da feira e do mercado de ferro. Vontade doida de sair da canoa e me misturar à multidão.

Por volta das sete horas, Deco, o cozinheiro da Flor do Cajari, foi ao mercado comprar peixe para o almoço e me levou com ele. No trajeto da canoa ao mercado, totalmente zonzo por estar pisando pela primeira vez em terra estranha, fui trombando com as pessoas entre o dilema de olhar para os lados ou me manter firme nos calcanhares do cozinheiro para não me perder no meio do povo. Deco comprou piramutaba que o peixeiro habilmente embrulhou em folhas de guarumã, pois na época não se usava os famigerados sacos plásticos. Passei o resto do dia na canoa, só na mutuca, macuricando tudo. Voltei pro Cajari mas deixei meu coração no Ver-o-peso.

Depois disso, muita água passou por baixo da ponte existencial até fevereiro de 1976 quando aportei definitivamente em Belém, atando minha canoa na “Felicidade”, pequena passagem no bairro da Condor, onde cultivo e compartilho sonhos na tentativa de tornar mais leve e colorido o fardo dos dias.

Em 1986, então presidente da União Brasileira de Trovadores, seção de Belém, promovi e coordenei o II Concurso Paraense de Trovas sob os temas: Ver-o-peso e Vigilengas. Aqui, as trovas premiadas sobre o Veropa. Detalhe: dos 15 autores premiados, 11 já habitam a Mansão Celestial.
No Ver-o-peso o feitiço,
vigilenga, erva cheirosa,
o preto, o branco, o mestiço...
Ah!, que mistura gostosa!
( Affonso Pinto da Silva)
No Ver-o-peso da vida,
eis um fato singular:
os barcos vão de partida
para a saudade chegar...
(Alfredo Garcia)
Ver-o-peso, a tua imagem
gravada no meu olhar,
até parece miragem
brincando à luz do luar.
( Ana Maria Freire)
No Norte sempre brilhaste
com fulgor que ninguém tem
e o Ver-o-peso é o engaste
dessa estrela que és, Belém!
( Benjamin Camarão)
Teu nome tem tanta luz,
Ver-o-peso enluarado,
que o próprio sinal da cruz
se agasalha deslumbrado.
(Celeste Proença)
Oh! Ver-o-peso querido,
lugar de felicidade,
um belo jardim florido
da nossa bela cidade!
( Creuzalina da Cruz)
Ver-o-peso esplendoroso,
belo cenário de eventos,
cartão postal buliçoso
de risos e sofrimentos.
( Gerson Ferreira)
Ver-o-peso... Pôr de tarde...
Quebram-se as ondas no Forte
se queixando da saudade,
da saudade do meu Norte.
(José Eimar Monteiro)
Pesa-me tanto desprezo
de quem fiz a preferida...
Acho até que errei o peso
no Ver-o-peso da vida.
(José Ildone)
Frutos da terra empilhados,
cuias , paneiros também.
Poemas amontoados
no Ver-o-peso, em Belém.
( Maria de Lourdes Cardoso)
Deus pintou a natureza
com tintas que idealizou,
e o resto dessa beleza
no Ver-o-peso deixou.
( Roberto Rodrigues)
Em Belém eu fiquei preso
pela paisagem postal
da Doca do Ver-o-peso
na sombra do mangueiral
(Rufino Almeida)
Cada vela colorida
no Ver-o-peso risonho,
é um retalhinho da vida
da capital do meu sonho!
( Sylvia Helena Tocantins)
Ver-o-peso, vou cantando,
rimas ao léu na poesia,
minha balança pesando
retalhos de fantasia.
( Thereza Nunes Bibas)
Mal desponta a madrugada,
o Ver-o-peso desperta!
Febril colmeia agitada:
- Belém, a porta está aberta!
( Zinalda Castelo Branco)
***
Bom dia, meu povo!

OBRIGADA AO NOSSO BOTO: ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Maria Helena