Há 4 anos publiquei no meu face algo que é o
caso de repropor...
“Bom dia, Gente de
bem de Belém ...O que sobrevive em NÓS, apesar dos avanços...
Escolhi algumas frases de um artigo bem cumprido
que poucos vão ler, para pensarmos nessa realidade... Tentei reduzir ao
máximo...
- Tem gente que está longe de ser algo surgido do
nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos
que antecederam as eleições. Pelo contrário, estou cada vez mais convencido de
que são uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de
pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do
nosso país.
- Na realidade o brasileiro é preconceituoso,
violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência... em quase tudo). É
racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro,
desonesto. De pouco adiantou os avanços civilizatórios que o mundo viveu, e que
se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de
combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em
diretrizes educacionais para escolas e universidades. ..
- Para eliminar valores arraigados, é preciso muito
mais para mudar padrões culturais de comportamento. O machismo foi tornado
crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive
no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas
e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas
piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos
grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.
- O que ocorre com o racismo, com o preconceito em
relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais? Proibido de se
manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente
de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. A
definição do politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de
conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”...
e quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele
se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar, e vemos isso por
ai , a beça. (...)
NÃO RESISTO, O RESTO É TÃO VERDADEIRO QUE DOI... reproduzo por inteiro.
“Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro
médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos,
que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de
extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu
representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que
ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.
Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se
sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os
índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder
quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal
formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente
importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o
senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os
artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que
sua própria ignorância não permite compreender.
Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças
políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são
anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas
crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz
acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a
destruição de todos os opositores.
Ao assistir o show de horrores diário produzido
pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou
pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que
vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de
dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu
mais profundo e mais verdadeiro.
O “brasileiro médio” não entende patavinas do
sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre
os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos
políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso
Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o
Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo
“cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias.
Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático,
mas condição necessária para fazê-lo funcionar.
Esse brasileiro não vai pra rua para defender um
governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria
mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por
outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá
sustentação ao governo que o representa.
O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a
autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres,
negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja
incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego
dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de
dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo
benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando
outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.
Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro
esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar
como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo
e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão
a ser respondida é: como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos
de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de
sentirem-se representados por tal governo?
Ivann Lago
Professor e Doutor em Sociologia Política