Em 2014 fiz
um balanço, indignado, do que era Belém nos primeiros anos de luta da CIVVIVA. A realidade de
então não modificou quase nada e imaginamos que isso aconteceu porque, a “educação patrimonial” que sugerimos, não
aconteceu até hoje.
Mudam os partidos
que governam a cidade, mas a “cabeça” é sempre a mesma: atenção ao patrimônio,
bem pouca e entrosamento com a cidadania, nenhuma. Por mais que nossa democracia ja tenha superado a maioridade, a defesa/salvaguarda/proteção do nosso patrimônio ainda não foi assimilada como deveria.
Naquele dia a Cidade Velha não foi minha única preocupação, mas aquela parte tombada da cidade que via de dentro do onibus, sim. De fato comecei dizendo que...
Eu ando a pé ou de ônibus, assim olho
com mais calma o entorno por onde passo, não tendo que guiar nenhum veiculo. De
ônibus, sentando na frente, tenho a possibilidade de ver do alto o que me passa
ao lado o que, nem sempre, porém, resulta em imagens gratificantes.
Nos fundos da Igreja das Mercês tem um semáforo que, por coincidência, fecha sempre quando chega o ônibus onde eu estou. Desde a sede da Paratur, porém, pela Boulevard Castilhos França acompanho o rio, la no fundo, quando aparece entre um galpão e outro da Doca. No semáforo, em vez, viro a cabeça a esquerda e só falto chorar de desespero ao ver, ha mais de um mês, o que fizeram com a Igreja das Mercês...do lado de fora. Pinturas e faixas indicam os horários das missas. Chocante.
Acontece que, do lado de la, a frente
da igreja também não foi poupada, e o desespero toma conta de mim. Como é
possível um negócio desse? Onde estão com a cabeça, para usar os muros de uma
igreja pluricentenária desse jeito?
Entro na Igreja e so falto desmaiar:
pintaram de vermelho as lajotas do chão, como se fossem de cimento. Um abuso
atrás do outro, como é possivel?
Olho estarrecida tudo quanto e faço
várias suposições; tento encontrar motivações para tais atos vandálicos (para
mim o são). Quem sabe é uma provocação? Não posso acreditar que o responsável
seja ignorante ao ponto de fazer tais intervenções na igreja esquecendo sua
historia, sua origem. Será que os donos, ou que tem a cura dela, não sabem que é tombada? Ou é para chamar
atenção daquele verdadeiro jardim suspenso amazônico que se desenvolveu nos seu
telhado, e que, com certeza está abrindo canais de infiltração como aqueles
encontrados na recem-restaurada igreja do Carmo?
O pior é que esse não é o único
exemplo, infelizmente. Durante estes dias da nossa maior festa, alguem provou
olhar a situação da igreja de Nazaré? Viu o estado dos estuques e de toda a
decoração? E como é que permitiram todo aquele aparato tecnológico, telas e led
por todo lado e altares novos de gosto duvidoso...enquanto a casa está caindo,
praticamente?
Lembrando outros atos que ocorreram
este ano com o nosso patrimônio histórico, não tombado, aumenta o meu desgosto.
Falta algo. Será um pouco de fiscalização?
Ou falta de interesse? Faltará mão de obra nos órgãos que tem a
responsabilidade de cuidar dos prédios que representam a nossa memória
histórica? Falta dinheiro???
Não vemos resultado das denuncias que
foram feitas de estacionamentos que nascem onde tinha alguma casa antiga, e que
foi derrubada num fim de semana ou durante o carnaval... Trepidamos pelo que
poderá acontecer com o Palacete Bolonha quando concluírem o que estão fazendo
no seu entorno. Não vemos diminuir o numero de carretas que trafegam pela área
tombada, fazendo assim trepidar prédios públicos e privados. Quem nos garante
que a Celpa (1) vai tirar aqueles horrendos medidores de energia que instalou na
Cidade Velha? Por outro lado, vemos aumentar, em vez, o numero de casas antigas
pintadas com cores fortes que nada tem a ver com nossas lembranças. Enfim....
Lendo as leis, porém, sentimos que os
legisladores das tres esferas de governo, tentaram salvar nossa memória, usando
palavras claras como: salvaguardar, preservar, conservar, proteger, recuperar,
etc., e isso, feito através de "vigilância, tombamento, desapropriação e
de outras formas de acautelamento e preservação".
Em nenhuma lei encontramos palavras
como "revitalização" ou "embelezamento" pois a idéia
principal era salvar a nossa memória, aquela real, não uma inventada, mais
bonita ou colorida, como vemos agora acontecer até nas igrejas.
O que está acontecendo em Belém? O
que leva a essa situação? Insisto com as perguntas: na opinião de vocês, será
falta de vontade? desinteresse pela nossa história? falta de dinheiro? falta de
conhecimento das leis? ou de que mais? Enfim, o que deve ser feito para que não
desapareça o que sobrou da nossa história?
Todo ano, muitos paraenses vão para
a Europa, não somente olhar vitrines, fazer compras ou estudar, mas ver também
o "Velho Mundo" com seus palácios, igrejas, praças e quanto mais
sobrou de séculos de história. Por que nós não podemos deixar nada para nossos
netos e, quem sabe, algum turista, verem? Sabemos que ao turista que vem para cá interessa a nossa floresta e não bebidas da terra deles, tipo cerveja, bebidas na beira de calçadas que, aliás, deveriam ser dos ´pedestres'.
Como vai chegar aos 400 anos de Belém
o que sobrou do nosso Patrimônio Histórico se nada for feito, rapidamente?
Belém, 25 de Outubro de 2014
Dulce Rosa de Bacelar Rocque
(Colaboração e fotos do arquiteto
Sérgio Lobato)
(1) Consegimos, depois de muita luta, que a Celpa retirasse aqueles "olhões" da área tombada da Cidade Velha.